sexta-feira, 25 de julho de 2008


RETRATO DE CONTRABANDISTA


Não tenho a completa certeza. Mas, com 95% de probabilidades, esta contrabandista presa na cadeia de Castelo de Vide na década de 1930 e retratada por Cora Gordon no seu livro Portuguese Somersault, deve tratar-se de Rosária da Conceição, minha tia-bisavó, natural de Carreiras (Portalegre).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

JOVEM SEDUZIDA
É DESPREZADA PELO PRETENDENTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Eu amava uma menina, tinha-lhe muita amizade.
Falava-lhe à meia-noite e todos os dias à tarde.
Um dia lhe perguntei qual era a sua intenção:
"Se não logro carinhos teus, rebento de paixão."
"Se tu lograsses carinhos meus, ai de mim, o que seria?
Matavas o teu desejo, casar comigo não querias."
"Casava, querida, casava. Junto ao pé de quem sou
Tenho o sentido perdido, já não sei onde estou.
Já não sei onde estou, minha terra onde fica.
Remédios para te ver já os não há na botica."
Desceu pela escada abaixo, na mão direita me pegou.
"Boa cama cidadão." Logo ali se deitou.
Logo ali se ajoelhou a um Senhor que ela tinha.
"Os cinco sentidos que eu tenho os emprego em ti menina."
Primeiro era cheirar o cheiro da linda rosa.
Corria-lhe a mão pelo rosto, era coisa preciosa.
Quando foi o nascer da aurora, estava em estado de cair.
"Deixa-me ir daqui embora, antes que me vejam ir.
Não quero que a sua mãe diga que eu vim aqui dormir."
"Vai-te falso, vai-te ingrato, já lograste carinhos meus.
Lá irás ao Purgatório fazer contas com Deus."
"Se eu for ao Purgatório, hei-de ir com boa tenção.
Quero que Deus me perdoe como perdoou ao bom ladrão."
Torradas, boas torradas, eu aqui bem as torrei.
Fazias-te fina comigo, mas eu bem te apanhei.
Torradas, novas torradas, torradas, café, cebola.
Difamei uma bela donzela, casar com ela? Xô rola!
JOVEM PÕE NAMORADA À PROVA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Antónia Grilo, de 83 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA


"Onde vais ó padeirinha de pucarinha na mão?"
"Vou à fonte buscar água, olaré, para amassar o meu pão."
"Para amassar o teu pão, padeirinha faz-me um bolinho.
Eu já daqui não abalo, olaré, sem tu me dares um beijinho."
"Um beijinho não te dou, porque não to posso dar.
Se a minha mãe lá souber, olaré, não me faltaria ralhar."
"Se a tua mãe te ralhar, tu não lhe baixes a asa.
Se ela te quiser bater, olaré, tu foges para minha casa."
"Para tua casa não vou. Não tenho lá que fazer.
Se a minha mãe me ralhar, olaré, o meu remédio é sofrer."
"Gosto de ti, ó padeirinha, do teu modo de falar.
Se sempre falares assim, olaré, depressa vamos casar."
JURAMENTO AMOROSO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Recolha do Rancho Folclórico dos Fortios. Transcrição de Ruy Ventura.

SAIAS DO BALDIO


"Em Portalegre fui caixeiro, na Urra fui lavrador,
N' Alagoa carpinteiro, nos Fortios sou cantador."
"Tens uma voz tão trinada, que me chega ao coração.
Ainda estou na minha casa, já sei que andas na função."
"Ouve lá ó rapariga o que eu agora te digo:
Se tu gostares de mil, quero ter falas contigo."
"Ó cantador afamado, coração de pedra dura,
Mas se falas a verdade o meu peito se aventura."
"Se tu me quisesses tanto como eu te quero de mais,
No caminho se encontravam meus suspiros com teus ais."
"As estrelas miudinhas fazem um céu bem composto.
Já Deus me chegou a tempo de ter amores ao meu gosto."
"Jura, amor, juramos ambos. Façamos jura bem feita.
Jura lá que me hás-de dar na igreja a mão direita."
"Ó meu amor, anda, vamos à igreja dar a mão,
Tapar as bocas ao mundo, descansar meu coração."
JOANINHA E O ESTUDANTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Esteves, de 78 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Olá menina Joaninha." "Boa noite, senhor Joãozinho."
"Está em casa sozinha?" "Estou à espera do meu paizinho."
"Está aqui sempre encerrada, já nunca quer aparecer.
Quando sai vai encantada, ninguém é capaz de a ver."
"Joãozinho, tenha paciência em eu lhe falar assim.
Não lhe deve fazer diferença, que não tem interesse em mim."
"Joaninha, não fales assim. Não digas palavras tais.
Eu não sofro de amor por ti, que é ainda muito mais."
"Joãozinho, eu bem sei que por mim não sofre nada.
Sei que sofre sim por quem, pela sua namorada."
"Namorada hei-de terr quando a Joaninha quiser,
Que eu não me quero prender ao amor de outra mulher."
"As juras do senhor estudante, desculpe eu dizer como são,
São tão firmes como a manteiga quando no focinho de um cão."
"Com essas tuas palavras quase me ias ofendendo.
Ainda um dia vem a saber o que por ti estou sofrendo."
"Joãozinho, eu bem sei que amanhã é doutor.
Eu bem sei que não mereço homem de tanto valor."
DESPIQUE ENTRE DOIS PRETENDENTES

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria José Paulo, de 85 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.

CANTIGA DO CARNAVAL

O Manuel e o Joaquim são dois jovens encantados,
Mas têm grandes problemas porque andam sempre zangados.
Não há quem na terra não veja, não há quem na terra não ouça.
Têm um grande problema: disputam a mesma moça.
Não há coisa mais bonita, nem coisa mais engraçada:
A rapariga é catita e eles brigam à desgarrada.
Um quer a Inês para si e diz que a faz feliz.
Outro nada lhe promete e em modo de verso lhe diz:
"Rapariga, pensa bem no que agora te digo,
Que só merece quem tem, eu mereço ficar contigo."
O Manuel já está zangado com a conversa do Joaquim:
"Já que és moço arrogado, chega-te cá para mim.
Ò Joaquim, assenta bem o que eu agora te digo:
Se ela pretende alguém, pretende ficar comigo."
"Dizes que fica contigo, já te digo que tem um preço.
A Inês fica comigo, pois sou eu que a mereço."
"Homem mais burro não conheço, julga que é o primeiro
E que a Inês o pretende porque tem muito dinheiro.
O dinheiro não é tudo, já te vou a ripostar.
Quando se acabar o dinheiro, como a vais governar?"
"Tu tens fala de enganar, e a resposta aí vai:
Quando o dinheiro acabar está o dinheiro do meu pai."
"Eu já te vou a dizer qual a nossa solução:
É preciso é amar, amar é ter coração."
"Se não te dou a razão, quem resolve é a Inês.
Não venhas com frases feitas, já não te digo outra vez."
"Agora tu tens razão e eu já estou decidido.
Vai acabar a discussão, fica contigo ou comigo."
"Sou apenas uma rapariga, não estou aqui para julgar.
Ainda não estou decidida qual dos dois levo ao altar."
E acabou a discussão, um sem fala, outro mudo.
Era apenas reinação que se faz no baile de entrudo.
MARIQUINHAS

Versão de Portalegre. Recitada por Maria Emília Miranda Franco, de 62 anos, natural de Reguengo (concelho de Portalegre). Recolha de Fernanda Franco em Novembro de 2000. Transcrição de Ruy Ventura.


"É chegada a ocasião de encontrar a quem eu queria.
Como passas, Mariquinhas, há muito que ná te via?
Agora que aqui te vejo, já tenho mais alegria."
"Que lhe importa como eu passo, sempre é bem impertinente.
Passe bem ou passe mal, o meu corpo é que o sente."
"Ai, se tu soubesses Mariquinhas, não me falavas assim.
Eu gosto muito de ti, tu é que não gostas de mim.
Dá-me a tua direita mão para séculos sem fim."
"Tenho duas, se lhe dou uma, decerto que fico mal,
Fico maneta de um braço, tenho que ir para o hospital."
"Não é assim como dizes, é falta de entendimento,
É um laço que se dá quando há um casamento.
Dá-me a tua qu' eu dou-te a minha para o nosso arrecebimento."
[..................................................] [.............................................]
DIÁLOGO ENTRE DOIS JOVENS
NA COLHA DA AZEITONA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.

"De cima desta oliveira, vou-te fazer uma procura.
Diz-me cá, ó cantadeira, se a azeitona está madura."
"Valha-te Deus criatura, o que me vens procurar.
Uma mole outra mais dura, toda se tem que apanhar."
"Vai toda para o lagar para fazer azeite fino,
Para o Senhor se alumiar no sagrado altar divino."
"Eu já vi que és muito fino, percebo a tua intenção.
Põe a escada bem a pino, não deites ramos para o chão."
"Devagar se corre a mão, bem firme se põe a escada.
É Inverno, não é Verão, os ramos têm geada."
"Eu estou quase engadanhada, mas ao lume posso ir.
Para cantar à desgarrada, estou aqui para te ouvir."
"Contigo quero discutir para que tu me compreendas.
Não penses que eu vou cair nas malhas da tua renda!"
"A cantar nunca me ofendes, nem queiras imaginar.
Se és vendedor de fazendas, eu não te quero comprar."
"Vamos ter que mudar deste para outro olival.
Temos os panos a dobrar, já se não levam tão mal."
"O encarregado geral já deu ordem de partida.
Se a azeitona for igual, temos uma fega comprida."
"Azeitona bem miúda, fica depois em bagaço.
Cantando se leva a vida, é mais uma quadra que faço."
"Já vou sentindo cansaço de andar com escadas às costas.
Com o meu desembaraço, vou-te arranjando as respostas."
"Por aquilo que demonstras, vejo a tua dignidade.
Já vi que de mim não gostas, cantemos por amizade."
"Para te dizer a verdade, não tenhas essa ilusão.
No cantar não há maldade, no trabalho também não."
"Vamos pedir ao patrão que nos dê acabamento:
Café, fatias e pão, vinho, tomate e pimento."
"E um bailarico, lá dentro do quintal da laranjeira.
Para nosso divertimento nós fazemos a bandeira."
DESPIQUE ENTRE MARIDO E MULHER (2)

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


"Deus te salve mulher ingrata, 'inda estás muito bem deitada.
'tás deitada à boa vida e não queres fazer nada,
Nem o jantar me tens feito, está uma boa empada!"
"Por que é que me chamas empada? Diz-me que mal te fiz eu.
Por não ter o jantar feito, podes comer como eu,
Pois se ele não for melhor, pode ser igual ao meu."
"Tu eras mal empregada a não teres um bom jantar.
'tás deitada à boa vida, eu farto de trabalhar,
'inda me dizes, velhaca, qu' eu que t' hei-de governar."
"Se tu assim o não querias, não procuraras tal estado.
Escusava d' agora ter dois filhinhos ao meu lado.
Quer de dia quer de noite, não é pequeno o enfado."
"A grande trabalhadora, com dois filhinhos que tem...
Há tal que tem seis e sete [..........................................]
Tratim deles com' às mais e ajudim seus homens também."
"Triste de quem atura homens, deve-se vestir de graça,
Ter paciência de Job, saber tudo quanto passa.
E os homens todos são maus, todos são da mesma raça."
"As mulheres são umas santinhas, umas falsas criaturas.
Inganim os pobres homens com palavras, formosuras.
Dizem umas certas razões, são cadeias d' imposturas."
"Toma conta dos teus filhos, qu' estão de boa idade,
P'ra me saber governar, tenho boa habilidade."
"O teu pai fez muito mal não te ter metido num convento.
Porque és flor muito mimosa, faz-te mal andar ao vento."
"Não nasci para ser freira nem senhora recolhida,
Só nasci para ser tua, para me dares tão má vida.
[De] contigo ter amores eu já 'tou arrependida."
"Esta mulher é o diabo, não a faço ter prudença.
Não tens emenda na língua, e acabo-te c' a irresistença!"
"Das contas que tu me deres, tu não ficas sem quinhão:
Davas-me uma bofetada, eu dava-te um bofatão,
E vinha o diabo s' eu levava pancadas da tua mão."
DESPIQUE ENTRE MARIDO E MULHER (1)

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Deus te salve mulher ingrata, que estás muito bem deitada,
Nem o jantar me tens feito, estás uma bela empada."
"Por que me chamas empada? Diz-me: que mal te fiz eu?
Por não ter o jantar pronto, tu podes comer do meu.
Além de não ser bom, será assim igual ao teu."
"Tu eras mal empregada de não teres um bom jantar.
Tu deitada à boa vida e eu farto de trabalhar.
Ainda não digas, velhaca, que eu te hei-de governar."
"Pois se tu assim não querias, não tomasses tal estado.
Quer de noite, quer de dia, dois meninos ao meu lado.
Ainda te parece, marido, que é pequeno o meu fado."
"Oh, que grande trabalhadeira, com dois meninos que tem.
A tal tem seis e sete, tratam deles como as mães
[..............................] alinham os maridos também."
"Pois se tu assim não querias, não pedisses à minha mãe
Sem falares com o meu pai [............................................].
Por isso te digo, marido, vai-te embora, não te quero mais."

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O PATRÃO E A CRIADA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Recitada por Rosa Antão Carrilho, de 73 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Deolinda, tu não sabes a dor que o meu peito sente,
Em te não vendo em casa, fico logo descontente,
Em ouvindo a tua fala, fico louco de repente."
"Olha a graça do patrão, dá-me vontade de rir.
Não me estejas com chalaças, que a patroa pode ouvir."
"A patroa está dormindo, não ouve o que a gente diz.
Faz o serviço bem feito, que ainda vens a ser feliz.
No dia que eu fizer anos vais comigo a Paris."
"Era agora o que faltava era eu ir para o estrangeiro
Para fazer essa viagem, patrão, não tenho dinheiro.
Tenho os meus três muito certos guardados no mealheiro."
"É por esses três, menina, que tu tens em teu poder.
Qual é que há-de ser o dia em que me os hás-de deixar ver?
Tenho coragem e dinheiro para o mealheiro encher."
"A patroa também tem um mealheiro já usado.
Ainda há pouco que eu lho vi, que está todo escangalhado.
Deve ser do dinheiro que o patrão lá tem deitado."
Assassinato conjugal

A SALA DO MEU RECREIO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria de Fátima Bicho, de 50 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Ai eu fui ao jardim da nora, fui colher a flor do alecrim.
Só tua mãe te criou, lindos olhos para mim."
"Anda minha amiga, anda, comigo dar um passeio.
Vamos comer um jantar à sala do meu recreio."
"À sala do teu recreio, isso não, não pode ser.
É que está lá a tua mulher, que nem à sombra me quer ver."
"Minha mulher não está lá, nem por estes dias vem.
Foi fazer uma visita ao seu pai e sua mãe."
Logo ao primeiro prato, logo ao prato primeiro,
Ela lhe disse para ele quem seria o cozinheiro.
"Come, minha amiga, come, não te faças amarela.
Olha que estás comendo da mais mimosa vitela."
"Da mais mimosa não é, é que ela deita amargor.
Mataste a tua mulher e foste para mim um traidor."
"Matei a minha mulher, e isto para a gente é segredo.
Ai toma lá estes anéis que ela trazia nos dedos."
"Os anéis que tu me deste também te servem a ti.
E mataste a tua mulher e também me matas a mim.
Venha povo, venha povo! Venha povo, venha ver!
Venha também a justiça para este ladrão prender.
Matou a sua mulher e ainda me a veio dar a comer."
Jovem enganada pelo namorado suicida-se

A COSTUREIRA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria de Fátima Bicho, de 50 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


Trabalhava a costureira uma noite inteira no seu intento
Para deixar concluído o seu vestido de casamento.
De manhã as raparigas, duas amigas da sua infância,
Levaram cravos, rosas, e flores mimosas com abundância.
No civil com atenção, com união, tudo exclamava.
Desmaiava a noiva em saber do noivo ter outra enganada.
Ela foi para o seu quarto e lá de dentro fechou a porta.
Quando foram para a arrombar já foram dar com ela morta.
Com o seu lindo vestido melhor tecido levou ao chão.
E as flores do casamento foi sentido sobre o caixão.

terça-feira, 8 de julho de 2008


Sobre as origens de Santo António das Areias


A zona central e mais antiga de Santo António implanta-se numa suave encosta, maioritariamente, exposta ao poente, drenada por linhas de água de curso sazonal, das quais se destaca o Ribeiro do Lobo e a Ribeira do Tragazal. Ainda que até esta data não tivesse sido identificada qualquer referência a esta aldeia anterior a 1569, poderemos equacionar a hipótese deste lugar ter sido ocupado a partir dos fins do Império Romano. Esta hipótese assenta na estratégia de povoamento da Alta-Idade-Média que se constata na área do actual concelho de Marvão. Com a destruição da cidade de Ammaia e sob a pressão dos Bárbaros, verifica-se, sobretudo a partir dos finais do século V, uma nova forma de ocupação dos solos. Pequenos e médios casais agrícolas começam a estabelecer-se nas encostas suaves, não muito longe de linhas de água, envoltos por terras com alguma aptidão agrícola mas, sobretudo, não muito evidentes na paisagem. A instabilidade política obrigava a alguma precaução. Desses conturbados tempos conhecemos vários testemunhos nas imediações de Santo António das Areias. Destes destacam-se os pequenos habitats da Água da Cuba, da Patinha da Burra, da Asseiceira, da Ranginha, do Lagar dos Frades ou o da Feijoeira. Qualquer destes sítios arqueológicos, infelizmente nunca estudados, apresenta uma implantação orográfica muito semelhante à que se verifica em Santo António. Provavelmente, esta aldeia terá origem num desses habitats que, após a Reconquista Cristã, gradualmente foi crescendo vindo a merecer a edificação de um templo dedicado a S. Marcos.Se lermos as “Memórias Paroquiais” lá encontramos a referência a este templo que se implantaria um pouco acima da actual “Casa do Povo”, não muito longe da velha Fonte da Vala. Esse templo, em torno do qual se constituiu o primeiro cemitério da aldeia, terá sucumbido quando se procedeu à transladação colectiva para o actual, já em inícios do século XX.Embora não tenhamos qualquer informação sobre a data da construção da Igreja de S. Marcos ela seria, seguramente, anterior à de Santo António. Esta presunção assenta na maior antiguidade do culto a S. Marcos e, sobretudo, na memória toponímica que ainda hoje se guarda, por exemplo, em Valência de Alcântara, em relação a esta aldeia. Os mais idosos do lado de lá da fronteira quando se referem à aldeia de Santo António das Areias denominam-na por S. Marcos. Eventualmente, esta antiga toponímia poderá ter, também, alguma relação estreita com a afluência de espanhóis às festas em honra de S. Marcos. Mas, exactamente, a festividade e feira que anualmente se organiza em honra de S. Marcos, a maior e mais concorrida do concelho, comparada com a já muito esquecida procissão em honra de Santo António, parece reforçar a nossa interpretação de que, originariamente, esta povoação terá emergido em torno da desaparecida igreja de S. Marcos e posteriormente, terá então sido construído um novo templo dedicado a Santo António, no sítio das Areias.A nova igreja, provavelmente construída na segunda metade do século XVI, terá originado outra organização urbana em torno do novo e mais amplo templo, contribuindo para a perca de centralidade da de S. Marcos. A data aventada para a edificação da Igreja de Santo António assenta na leitura da inscrição gravada no capitel do cruzeiro onde, com dificuldade, ainda se lê 1569. Se a nossa leitura estiver correcta e se o cruzeiro for contemporâneo da construção da igreja, a data da centúria de setecentos que se mostra gravada na base granítica que sustentou o púlpito que se encontrava no interior da Igreja de Santo António deverá corresponder a uma fase de remodelação ou reconstrução deste templo e não à data da sua fundação.De qualquer forma, esta data da centúria de setecentos é bastante posterior ao mais antigo registo paroquial que se conhece para esta aldeia. Estranhamente, este registo reporta-se a um baptismo datado de 1715. Dizemos estranhamente porque, por norma, os mais antigos registos reportam-se, exclusivamente, aos óbitos. Naturalmente, esta norma aplica-se, essencialmente, aos registos paroquiais mais antigos, datáveis dos finais do século XV e século XVI. Iniciando-se o primeiro livro de registos com um baptismo no ano de 1715 e constando no mesmo livro o assento do primeiro casamento em 1716 e o primeiro óbito em 1722, é provável que esta freguesia tivesse sido constituída no ano de 1715, ou um pouco mais cedo, embora já neste local existissem dois templos mas nenhum deles constituído, até essa data, como sede paroquial. As gentes residentes neste local estariam vinculadas a uma das freguesias sediadas em Marvão, ganhando a sua autonomia apenas no início do século XVIII.


Jorge de Oliveira

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